Ontem foi o Dia Mundial de D&D, evento que a Wizards of the Coast promove anualmente para que os fãs possam celebrar o primeiro e maior RPG (jogo de interpretação de papéis) da história. É fato que fui RPGista há muito tempo atrás, mas as obrigações cada vez maiores da vida adulta (doença crônica que acabou acometendo vários de meus melhores amigos também) acabaram me distanciando desse ótimo passatempo, assim como de muitas outras coisas que eu tanto gostava de fazer. Card Games, por exemplo.
Uma pena. Tenho saudades da época em que, sentado com algumas pessoas, eu podia salvar o mundo destronar um príncipe vampiro, virar um lobisomem, ou até mesmo derrubar uma cidade flutuante em um dos momentos mais engraçados que já vivenciei.
Mas não vou falar especificamente do RPG de mesa Dungeons & Dragons, já que esse eu joguei até que pouco, comparando com outros sistemas. Sempre que eu penso em D&D, a primeira coisa que me vem à cabeça é aquela fatídica noite em que fiquei jogando D&D: Shadow over Mystara no fliperama.
Explicando: D&D:SoM é um jogo estilo Beat’em up (bate, bate, bate) para fliperama, mas que possui ambientação e características típicas de D&D, com guerreiros, clérigos, magos, fireballs, orcs, goblins, e tudo o mais. Provavelmente, um dos melhores que já pude jogar, com complexidade acima do normal, vários tipos de golpes e magias, possibilidade de “subir de nível” (ficando assim mais forte), um dos chefes finais mais ignorantes de todos os tempos (eu conseguia chegar nele com uma ficha, mas aí a matar…) e até mesmo a chance de escolher caminhos diferentes dentro do jogo, permitindo criar jogos e estratégias totalmente diferentes a cada rodada. Devo ter gasto o PIB de um país médio nesse jogo.
Enfim. Essa história aconteceu há alguns anos, quando eu ainda fazia faculdade. Havia sido um dia horrível no trabalho, daqueles de tirar a vontade de viver de qualquer cristão, e eu decidi faltar na aula (já que eu não estava no menor clima pra isso) e aliviar a tensão em uma partida de D&D:SoM (eu sei o que vocês estão pensando: só sendo MUITO nerd para aliviar a tensão em um jogo de fliperama…). E, não sei o porquê, resolvi que jogaria com a elfa, ao invés do clérigo, meu personagem favorito. Vai ver, estava querendo destruição acima do normal. O jogo transcorria bem, até que descobri que uma das lendas do jogo era bem real: Se você conseguisse matar Tel’ Arin, o elfo negro da fase do barco voador, o jogo TRAVAVA!
Explicando: para dar mais “emoção” ao jogo, Tel’Arin se levantava um pouco antes de ser completamente derrotado (faltando uns 10% para sua barra de energia se esgotar, mais ou menos), mandava uma “super” bola de fogo em todos os heróis (fazendo com que todos desmaiassem) e, quando estava para dar o golpe final, era impedido, deixando os heróis à própria sorte. Só que os programadores (que provavelmente cometeram harakiri depois dessa) NÃO criaram formas de impedir que Tel’Arin fosse morto por um jogador sanguenozóio que conseguisse zerar sua barra de vida, e NÃO imaginaram uma maneira de fazer a história continuar rolando caso isso acontecesse. O jogo parava, e só desligando para começar de novo….
E lá estava eu, com a elfa, parada, vendo a minha façanha, pensando em como explicar para o dono do fliperama que eu havia travado o jogo através de um bug sem querer querendo, e que queria outra ficha, quando aparece o FILHO do dono, olha espantado pra mim, comenta que nunca tinha visto algo assim, vai para os fundos, e volta trazendo duas fichas: uma para mim, e outra para ele.
Normalmente, eu proíbo pessoas de jogarem D&D comigo. O jogo é bem complexo, há vários pontos que exigem cuidado para não perder um item importante ou uma magia forte, e a quantidade de inimigos aumenta com o número de jogadores, o que só complica ainda mais a minha vida. Aprendi até mesmo a famosa técnica de prender a entrada onde a ficha era colocada com o joelho, para evitar que pessoas incapazes de entender “não, moleque, você NÃO pode entrar pra jogar comigo” entrassem no jogo sem minha autorização. Mas dessa vez era diferente. Tipo, você não impede que o filho do dono do fliperama entre no jogo. Não é legal, sabe?
Eu já estava preparado para o pior (como ver o rapaz usar TODOS os itens nos goblins logo no começo do jogo), quando descubro que o carinha sabia jogar. E, o que é melhor, sabia tão bem quanto eu! Sem precisar ficar gritando “deixa essa magia pra depois, moleque! Não, cacete, pára de sair correndo pra cima dos montros, pelamordeus!” pude relaxar e apreciar a melhor integração entre clérigo (eu) e guerreiro (ele) que já surgiu na face da Terra!
Em pouco menos de cinco minutos, já estavamos totalmente sincronizados. Quando eu ia falar “sobe lá” ele já estava subindo, quando ele ia pedir uma magia de cura, eu já estava com ela no ponto. Não havia uma única falha em nossa forma de jogar. Logo depois do Tel’Arin, deixamos de falar, já não era mais necessário. É como se já fôssemos antigos irmãos-em-armas, experientes em várias batalhas, e capazes de saber exatamente o que o outro estava querendo fazer. ![]()
Com razão, nossa partida foi atraindo cada vez mais pessoas em volta. Dava para ouvir os comentários, sobre como matamos o Lich com facilidade, como pegamos o caminho mais difícil e passamos sem problemas, e sobre como parecíamos saber tudo sobre o jogo. “Ei, eles vão mesmo enfrentar o dragão na caverna de Rafael? Eles são loucos?” - Não, éramos guerreiros. E ainda estavámos na primeira ficha…
Sério, não era um jogo comum, em que você saiu batendo sem parar nos inimigos, cai, morre, gasta mais uma ficha, e reinicia o ciclo. Parecia um filme épico, com roteiro, atores e situações definidos. Quando finalmente chegamos no Synn (um dragão gigantesco com mãos maiores
que os heróis, e um sopro de fogo que podia matar automaticamente) já éramos a sensação do fliperama, com uma massa de pessoas à nossa volta. Afinal, estávamos em um dos jogos mais difíceis já visto, dando um show, e agora iríamos enfrentar um monstro que já havia derrotado alguns dos melhores jogadores! E tudo isso com apenas uma ficha! E, claro, tiramos de letra: conseguimos guardar os melhores itens para o final, e ainda tínhamos as armas mais fortes para cada classe, além da já citada parceria perfeita. Em pouco tempo, Synn sucumbiu ao nosso poder.
E com isso, eu me tornava, junto ao filho do dono do fliperama, uma lenda na cidade: haviamos terminado Dungeons & Dragons: Shadow Over Mystara com apenas uma ficha, cada. Suados, cansados, ouvindo a gritaria do povo que estava em volta da máquina (adultos, mulheres, crianças, e uma ou duas mulheres da vida) só conseguimos olhar um para o outro e dizer “Bom jogo. Vamos de novo?” - Fomos, claro. E fizemos uma partida ainda melhor que a primeira. No final, tinha até maluco fazendo torcida e aplaudindo a derrota de Synn.
Saí de lá cansado, com as mãos doendo, mas renovado. Nunca havia me divertido tanto em um fliperama, e durante muito tempo sempre tinha um maluco que me parava pra perguntar quando eu ia voltar a jogar. Infelizmente, a faculdade estava pegando, trabalho idem, eu tinha um site para manter, e o tempo nunca mais me permitiu voltar lá e chutar a bunda de alguns goblins com meu recém-adquirido parceiro de luta. Mas ainda sinto saudades daquele dia.













junho 26th, 2008 at
Voce ja tentou emular esse game no seu pc???Procura na net o emulador FINAL BURN e a rom desse game e vc acha!!!
junho 28th, 2008 at
Jura?
julho 5th, 2008 at
Incrível como uma história como esta ainda não tem NENHUM comentário.
Eu tenho pouca experiência com os D&D do fliperama (e, se não me engano, estes jogos eram baseados nas regras do AD&D), mas joguei bastante em mesa.
Minhas classes preferidas sempre foram guerreiro e mago. Na minha última campanha estava jogando pela primeira vez com um personagem dual-class (adivinha!) guerreiro-mago.
É certo que no Dia Mundial de D&D do ano que vem eu farei um post assim.