O dia em que me tornei um supervisor de TI pior que o House

Durante 2007, os que me acompanharam nesse blog e via Twitter devem saber que sou um sysadmin que odeia os usuários, em especial os usuários burros.
Ok, eu também odeio os usuários não-burros que fuçam em tudo e depois ligam pedindo pra vir arrumar o que eles bagunçaram.
Tá, admito, odeio qualquer tipo de usuário…. mas não é exatamente sobre eles que vou falar hoje. Muita gente que encontro pessoalmente (ou via chat) sempre faz a mesma pergunta: Eu realmente sou assim, mal-humorado? E, eu sempre fui assim?
E é o que pretendo contar a vocês agora, nesse final de ano. Como me tornei um supervisor de TI que odeia seus usuários…
No começo, eu era o idealista típico: acreditava nas pessoas. Imaginava que, no fundo, elas tinham potencial para usarem um computador corretamente, e era minha função fazer com que tudo fosse o mais amigável o possível. Mais: eu via meus colegas de trabalho como amigos. E, fazendo uma análise posterior, talvez o verdadeiro problema estivesse aí.
Quando você é o cara que “controla” a rede, o acesso à internet e aos sistemas, é o tipo de pessoa que sempre terá “amigos”, que “amigavelmente” pedem para você liberar algum site, ou fazer vista grossa a um procedimento que vá contra as regras, ou ignorar os relatórios de acesso à internet. Afinal, “somos todos amigos, certo?”.
Hoje, eu responderia “errado” sem pensar duas vezes. Mas, até 2005, a amizade era mais importante do que fazer a coisa certa. E, por mais que eu me encrencasse, não havia problemas: sempre me chamavam para as festinhas, para os churrascos, para os barzinhos. E, para mim, isso era o importante.
Isso até meados de 2005, quando, motivado pelos resultados que uma menina no trabalho obteve, comecei a tomar remédios para emagrecer, além de praticar academia. O problema é que esses remédios possuem um efeito colateral muito forte: inibem o sono. E, em mim, sabe-se lá porquê, o efeito foi devastador. Logo nas primeiras doses, comecei a passar noites inteiras em claro, apenas virando na cama. Agora, imaginem minha situação: na época, eu era um obeso mórbido do pior tipo (quem me conhece hoje em dia pode não acreditar, mas hoje estou cerca de 25kg mais leve do que naquela época…) que, de uma hora para outra, começou a ter que fazer duas horas de academia, tomar remédios fortes para emagrecer, mal sentia vontade de comer (e, com isso, fui enfraquecendo cada vez mais), e, para acabar, dormia menos que uma hora por noite. Em um mês, eu estava enlouquecendo.
“Mas você tinha seus amigos do trabalho, né?”. Aí é que está. No final desse primeiro mês, que também foi um período estressante no trabalho (com jornadas de trabalho de 16 horas, para resolver algumas pendências com a fiscalização), recebi o golpe final na minha vida: um belo dia, logo após descobrir que iria ganhar um aumento e um bônus pelo meu empenho, estava voltando para minha sala e, sem querer, acabei pegando uma conversa entre meu estagiário e alguns dos meus amigos, onde todos riam de mim, brincavam com minha situação.
Faço uma pequena pausa no relato: para ter uma idéia de como eu prezava aquelas pessoas, no começo de 2005 a empresa não estava numa situação boa, e muitas pessoas estavam sendo mandadas embora. Quando me disseram que esse estagiário teria que ser mandado embora, eu disse que se ele fosse, eu iria junto também. E, acreditem, não foi diferente com as outras pessoas que estavam ali, naquela roda, se divertindo às minhas custas.
Tentem entender: não é fácil quando você descobre que aquelas pessoas que você praticamente chamava de “irmãos” não riam COM você, mas DE você. E que eu só era aceito no grupo deles porque tinha “controle” da internet. E era o que eu estava vendo ali. Mas eles não sabiam que eu sabia. O que só tornou tudo pior.
Mais uma vez, entendam: eu não estava com a cabeça boa. Na época, a única maneira que consegui encontrar para continuar vivendo foi me fechar em mim mesmo: não falava mais com ninguém no trabalho, o mesmo na academia, e o mesmo em casa. A dor foi tanta que de uma certa forma eu deixei de acreditar nas pessoas: pra mim, todas estavam sempre rindo de mim pelas costas.
E aí temos mais uma punhalada: meus “amigos” no trabalho perceberam que havia alguma coisa errada comigo, e que eu não fazia mais “favores” para eles, e com isso começaram a me hostilizar, com piadinhas, comentários maldosos, indiretas, emails ou mensagens irônicas que vinham parar “por engano” na minha caixa postal. Parecia que, quanto mais calado e apático eu ficava, mais eles me provocavam. Não vou relatar tudo o que foi feito, mas imploro aos meus leitores que acreditem em mim: era muito mais do que muita gente poderia aguentar.
Não me lembro onde li isso, mas é a melhor maneira de resumir o que eu estava passando: quando uma pessoa é um alcoólatra, e decide parar de beber, espera-se que seus amigos lhe deêm todo tipo de ajuda possível. Se um desses amigos resolve lhe oferecer uma bebidinha, só pra ver o “amigo” engolindo em seco, ele é uma pessoa má, sádica. O mesmo para quem fica fumando na frente de alguém que está se esforçando para parar de fumar, só para ver ele se sentindo mal. Nos dois casos, quem faz isso é um desalmado, um sacana, que não respeita a luta contra o vício do próprio amigo. Mas, quando a situação muda para regime, a mesma regra não se aplica. É normal, é divertido sacanear o “gordinho” comendo doces na frente dele, contando como foi gostoso o churrasco no final de semana, e por aí vai.
E isso era parte do meu dia-a-dia.
Em meio a isso, no fundo do poço, quando minha vida se resumia a chorar pelos cantos, tomei uma decisão: não tomaria mais aqueles malditos remédios. Emagreceria por esforço próprio, sem qualquer medicamento que me forçasse a emagrecer. Era o mínimo que eu poderia fazer para calar a boca de todas aquelas pessoas. Transformaria toda minha raiva em força para mostrar a eles que estavam errados sobre mim.
Pulemos aí uns três meses. Já estávamos em Outubro de 2005, e por razões que até hoje desconheço, a turma de KickBoxing havia gostado de mim, e me convidaram para uma noitada num bar. Coisa simples, nada de balada, apenas um barzinho entre amigos. Eu já estava decidido a furar o encontro para que nunca mais me convidassem, quando algo aconteceu: fiquei sabendo que, naquela mesma sexta-feira, meu estagiário estaria pedindo demissão, pois conseguiu emprego em outro lugar. Mas, nesse período de três meses, houve uma reviravolta no trabalho: para a maioria, eu não era a “vítima”. Eles eram. Esse estagiário estava saindo como um “herói” enquanto eu era o cara chato.
E, para dar o toque final à situação, meu chefe chamou a mim e a mais algumas pessoas para trabalhar no sábado. Motivo: o setor de licitações estava uma bagunça, várias coisas desorganizadas, e seria necessário um mutirão para arrumar tudo. E meu chefe disse que eu DEVERIA ir, pois era um dos poucos capazes de arrumar aquela zona.
Nesse cenário, acabei tomando uma das decisões mais malucas da minha vida. Eu IRIA para o bar, e encheria a cara até realmente ficar bêbado. Abro um parênteses na minha história: Provavelmente, graças à minha constituição física, é quase impossível eu me embebedar. Na época da faculdade, e mesmo no trabalho, eu sempre fui um dos que mais bebia, e o único a não sentir os piores efeitos da bebedeira. Assim, naquela sexta-feira, coloquei um plano em prática: eu IA ficar bêbado. E, para isso, não me alimentei o dia todo. Sério, não comi nada, além de um pão-de-queijo no almoço. E, pouco antes de sair para o bar, peguei algumas cápsulas de remédio para emagrecer que eu ainda não havia jogado fora, e tomei. Imaginei que com tudo isso, meu metabolismo não teria chance. E, parar coroar a noite, misturei vários tipos de bebida durante a noite. Resultado: às 2h30min, eu já estava oficialmente bêbado, do tipo que sentia tontura ao andar.
Ainda fiquei mais um tempo lá na mesa, e no final peguei carona com um casal simpático. E, assim, eu chegava em casa às 4h da manhã para acordar às 6h e ir trabalhar. Obviamente, não dormi. E fui trabalhar assim, ainda sentindo os efeitos da bebida. Tudo o que fiz foi parar na padaria, pedir uns Engov, e ir tomando até o trabalho, e mais nada.
Ao chegar, meu estado era claro, e eu não me importava com isso. Havia tanto álcool no meu organismo que eu poderia esterelizar um instrumento cirúrgico com minha saliva, mas eu estava lá. Aos poucos, começaram as divisões de tarefas, e obviamente, eu fiquei com a parte mais complicada: organizar as planilhas, arrumar fórmulas, remover discrepâncias nos controles. Os outros acabaram ficando com coisas mais simples, mas que ainda precisavam do computador.
E, adivinhem só: mesmo estando com mais alcool no organismo do que recomendaria a OMS, eu consegui trabalhar meu trabalho antes de todos. Na metade do tempo, para ser exato. Meus olhos mal se abriam, minha garganta estava seca, minha cabeça parecia que ia explodir, e meu estômago queria expulsar toda aquela bebida de maneiras pouco ortodoxas, mas eu ainda assim consegui fazer todo o trabalho mais complicado. Acabei pegando o trabalho de outras pessoas, ou elas não iriam conseguir terminar a tempo. No final, acabei voltando pra casa e provavelmente passei o resto do final de semana em coma.
Lá pela quarta-feira, quando o nível de álcool no meu organismo já estava baixo o suficiente para meu suor não ter gosto de destilado, acabei tendo uma revelação: Naquele sábado, eu provavelmente havia descido ao nível mais baixo que provavelmente poderia ter chego, e ainda assim eu fui capaz de cumprir minhas tarefas mais rápido e com melhor qualidade do que aqueles pessoas que se julgavam melhores do que eu. Foi como se uma voz me dissesse “Cara, você REALMENTE se preocupa com o que eles pensam? Começa a prestar atenção nessas pessoas, vê se elas se comparam a você”.
Pode parecer arrogante e presunçoso ler isso agora (e provavelmente É!), mas foi o que me tirou do marasmo em que estava. Ao começar a reparar nas pessoas, em como elas não se esforçavam para nada, em como elas sempre trabalhavam de qualquer jeito e jogavam as dificuldades no meu colo, fui vendo que a maioria daquelas pessoas que ria de mim levava uma vida medíocre. E, com isso, aos poucos fui mudando minha mentalidade.
Uma coisa era atender pessoas com dificuldades reais. Outra, era atender pessoas medíocres. Não havia porquê fazer isso. E, quanto mais eu “separava” as chamadas reais das chamadas “medíocres”, mais me estressava com essas pessoas. Lógico, sempre haverão aqueles que pensam que eu sou “mal”, “estúpido”, “grosso”, “chato”. Mas, acreditem, eles merecem coisa muito, mas muito pior.
Não há muito o que falar sobre mim depois daquilo. Essa “revelação” acabou sendo útil, pois me ajudou a me reerguer, a correr atrás do que eu quero, a me esforçar para não me tornar tão medíocre quanto essas mesmas pessoas.
Daí para começar a blogar sobre isso, sobre meus problemas com meus usuários, foi um pulo. E o resto, é história.
E, quem poderia dizer que remédios para emagrecer, amigos falsos, uma turma de kickboxing e o primeiro e único porre da minha vida poderiam gerar uma história com essa?
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Comentários
Bom ver que vc saiu dessa ^^
Eu não acho que seja arrogante dizer que os outros ali não se comparam a você. Desde a escola até o trabalho, não da pra ficar se preocupando com o que os outros pensam de vc, se for se preocupar só vai ter bem mais problema… (ainda bem que eu nunca soube o que falavam de mim na escola o.o)
Feliz natal e ótimo ano novo
\o
como diz aquela máxima, “usuário bom é usuário morto”.
Parabéns por ter se libertado dessa vida de falsidades e mesquinharias.
Felicidades pra ti no ano novo, esperamos mais histórias engraçadas dos teus usuários.
“Só traficante e administrador de rede tem usuários”.
Sabendo da historia eu vejo que tu é bonzinho demais.
Teus usuários merecem coisa muito pior, credo x.x
Que bom que saiu dessa ^_^
Belo depoimento.
Que bom que você descobriu seu real valor.
Nunca se esqueça que você vem em primeiro lugar!
Beijos,
Li
Se tivese se espelhado no BOFH como eu fiz na minha época de sysadmin muita coisa desse tipo teria sido evitada. ![]()
O que dá pra notar no seu post - algo que você já tinha revelado em partes (principalmente no Hajime) - é que você sempre se sentiu muito fragilizado, e isso provavelmente é decorrente da sua antiga condição física que, pelo visto, você mesmo não gostava.
Longe de mim bancar o psicólogo de botequim, mas você - ao menos nesse texto - se encaixa num arquétipo do “socialmente inapto” - daí o apego as amizades e a “decepção excessiva” quando estas se mostram falsas.
Muito como diversos roteiros de sitcons e filmes da sessão da tarde - que só lembramos porque, de fato, geram identificação. Há uma multidão de pessoas que, por motivos diversos, não se encaixam nos “padrões da sociedade”, se alimentam com migalhas de atenção e vêem tudo desmoronar quando “aquele beijo no coração” vem seguido de um comentário maldoso que você não deveria ter ouvido, como “desde que ele não exploda antes”.
Minha visão particular sobre o assunto é que a arrogância - e mesmo os méritos que levam a ela - se tornam uma muleta de compensação pelo fato de que as outras pessoas que te machucaram não precisarem de nada de seus esforços pra terem o tal convívio social dos sonhos que lhe escapa.
Muito disso, desculpe pela sinceridade, é decorrete da falta de espírito esportivo, já que se você não pode zombar alguém, signfica que não pode conviver com este alguém.
Claro que havia toda uma dificuldade extra pelo seu esforço que não era compreendida por quem não passava por esse problema: abstêmios (de qualquer coisa) não são compreendidos e muito menos respeitados, não importando se o são por motivos ideológicos ou de saúde.
Mas transferir a eles sua instafisfação só porque eles não te levam mais a sério que qualquer outra coisa é, também, uma característica “sociopata”.
O que leva o entendimento de ser você um gerente de rede - tem que ser alguém muito metódico (eu usaria termos menos elegantes aqui, mas não queria soar ofensivo) pra bloquear o acesso aos outros daquilo que libera pra si mesmo…
Eu só quero dizer uma coisa: eu gosto muito de você. E eu só queria poder fazer uma coisa: te dar um abraço. ![]()
Caraca, eu vim parar aqui muito aleatoriamente (pelo Twitter, devo mencionar…) mas parei tudo o que estava fazendo e tive que ler o texto até o fim. Interessante demais conhecer a história de alguém. Afinal de contas, todo mundo hoje é de tal jeito porque vários fatores o levaram a ser assim. Aposto como essas pessoas medíocres que cruzam o teu caminho também foram “construídas” assim. Mas, é claro, duvido que a vida delas tenha uma reviravolta como a tua
Parabéns pelo texto muito bem escrito! Um beijo.
Você não é sociopata, nem cai no arquétipo socialmente inapto. Os canibais sociais estão por toda parte e quando acham carne fresca fazem a festa. Já vi esse tipo de coisa acontecer, queriam fazer churrasquinho que uma pessoa pequena e mais “fraco”. Quanto mais “fraca” parece a pessoa mais eles se divertem, é sadismo sim! São cretinos mesmo!
Esse teu orgulho no final é que eu gosto. Essa altivez é fundamental na vida. Nem psicologia nem conversa resolvem bem esse tipo de situação. Paulada no quengo deles!
–bla
Tem um tipo de gente que vc tem que tratar na base da chicotada. Pelo que vc fala, esses seus ‘colegas’ de trabalho são assim. E como sysadmin, eu diria que é sua obrigação tratar esse povo na redea curta.
E na boa, tem mais eh que não ligar mesmo pra opinião de mula.
História rica e interessante. Mostra que se fazer de amigo, no mercado de trabalho atual, é complicado por demais. Estamos numa corrida sem volta para o individualismo.

Gostei da forma autêntica e sincera com que você parece descrever sua história.
Parabéns, pela forma e pelo conteúdo.