Ainda me lembro do meu primeiro videogame: era um Atari da CCE, coisa linda, meus pais compraram como presente de anivesário para mim e meus irmãos. Durante muitos meses, nós nos divertiamos jogando Pac-Man e…. bom, Pac-Man. Entendam, sempre fomos uma família de poucos recursos financeiros, morando em um bairro afastado. Jogos novos, só emprestado ou em aniversários, e olhe lá. Mas nos divertiamos muito, e provavelmente gastamos mais com novos joysticks do que com o videogame. Enfim: durante muito tempo, foi diversão para toda a família.
Meu segundo videogame foi um Master System, esse ganho de uma tia, numa época em que meu pai estava desempregado (valeu aí, seu Collor!). Meu irmão pediu, ele ganhou, e eu me apossei. Esse sim, foi a coqueluche da família, e principalmente o meu. Adorava aquele videogame. Alex Kidd, jogava todo santo dia. Aprendi inglês jogando Ultima IV, vejam só. Foi um dos que mais durou em casa.
De lá, pulamos para o Mega Drive, uma evolução do antigo Master System, recebido com o mesmo carinho. Em mais alguns anos, meu irmão juntou uma graninha, e comprou um PlayStation. Novamente, me apossei do bicho, e me viciei em RPGs que duravam mais do que 10 horas de jogo. Recentemente, em 2006, adquiri meu PS2, e tenho uma pilha gigantesca de jogos para fechar. Um dia talvez, quem sabe, eu compre um Wii. Meus sobrinhos estão crescendo, pode ser divertido deixá-los brincar com um videogame que não tenha tantos botões.
Relembrando, os videogames sempre tiveram um certo papel na minha vida ou na de minha familia. E, ao que me consta, nunca tivemos problemas com a polícia, ou com drogas, ou qualquer atividade ilegal. Tão pouco demonstramos tendências agressivas (entendam: além do normal para dois irmãos completamente diferentes com diferença de dois anos de idade).
Peguemos um outro exemplo: um garoto, quase da minha idade, que morava umas três casas acima da minha. Nunca jogava nada, nem mesmo ns fliperamas. Nem curtia muito esse negócio de jogos. Virou um traficante, vivia sendo preso, e suspeita-se que tenha matado vários, antes dele mesmo ser assassinado, há uns três anos.
A lista de comparações é imensa. Dois dos meus melhores amigos se conheceram em um centro de jogos, entre uma e outra disputa de King of Fighters. Um é um dos caras mais decentes que já vi, o outro casou-se e tem uma filha. Um outro grande amigo de infância, gênio da escola, jogava pouco, pois tinha que ajudar a familia. Casou-se jovem, conseguiu um bom emprego, e hoje vive bem ao lado de esposa e filhos.
Percebem um padrão? É, nem eu. Jogos, virtuais ou não, não são um fator decisivo no caráter de uma pessoa. O mesmo para televisão, revistas, quadrinhos, música, e etc. O que forma o caráter de uma pessoa é um conjunto de fatores, que incluem aí familia, escola, colegas, e etc. Se o jovem gosta de videogames, mas tem um bom suporte familiar/educacional em casa, vai saber que existem diferenças entre o jogo e a vida real. Vai saber que meter uma capa nas costas não te torna um super-homem. E, se mesmo assim não souber, é visível que ELE tem algum problema, que deve ser tratado como QUALQUER outro problema de convívio social. Com surra terapia.
Mas não. Vivemos numa época maldita. Os pais, por mais incrível que pareça, não querem ser responsáveis pela educação de seus filhos. A escola, só se sente obrigada a alfabetizar a criança, e algumas vezes nem isso. Assim, para que não se perca tempo tentando ensinar às crianças conceitos simples como certo e errado, é muito mais fácil e conveniente culpar alguma mídia popular pelo desarranjo da juventude. Já foi assim com o rock, com os quadrinhos (lembram da polêmica do livro “Sedução dos Inocentes”?), com os mangás e animes, com o RPG, com os card games, com a televisão, e com os videogames. A culpa da criança ter problemas sociais não é dos pais relapsos, incapazes de dizer o nome dos cinco melhores amigos do próprio filho, ou da escola, incapaz de ensinar algo diferente do “be-a-bá”. A culpa é da <insira a midia do momento aqui>, que denigre os valores da sociedade e são capazes de formar indivíduos agressivos, sobressaindo evidente que é forte o seu poder de influência sobre o psiquismo, reforçando atitudes agressivas em certos indivíduos e grupos sociais.
O de sempre: você se torna marginal por gostar de algo que os adultos não entendem, e por exibir algum tipo de comportamento que poderia ter sido evitado com um mínimo de conversa e orientação. E aí, é só um maluco retardado, que dava a anos todos os sinais de ter uns trinta parafusos a menos, sair atirando em alguém em shoppins para botar a culpa nos videogames. É muito mais fácil culpar a influência de um jogo do que admitir a culpa na formação do próprio filho, né?
A mais recente vítima desse tipo de mentalidade idiota, retardada, ultrapassada e sem-vergonha é a proibição dos jogos Counter-Strike e Everquest no país, com a justificativa de que os mesmos são “nocivos para a juventude”. Não é ótimo viver num país sem fome, miséria, corrupção, favelas e outras coisas típicas de paisecos de 4° mundo, onde temos juízes com tempo suficiente para definir, sem qualque base sólida, a proibição de jogos (sendo que um nem mesmo é comercializado oficialmente no país, olha só…).
Counter-Strike é um jogo violento? Sim. Por isso é recomendado para maiores de 18 anos, pessoas que teoricamente são capazes de lidar com a atmosfera do jogo. Se os próprios pais controlassem seus filhos, não haveria necessidade de proibir o jogo a todos. Era “só” explicar a ele a complexidade do jogo, e oferecer alternativas viáveis. Se o pai deixa o filho de 10 anos jogando CS porhoras seguidas na Lan House, é ele que deve ser preso, não o dono da Lan House, ou até mesmo o fabricante/distribuidor do jogo. Simples, o filho é teu, a responsabilidade é tua.
Toda censura é burra, idiota e irresponsável. No passado, Carmageddon e Grand Theft Auto foram proibidos. Houve redução na criminalidade? Sabemos que não. Mas é muito mais fácil tapar o sol com a peneira. E, o que é pior: não resolve. Um adolescente com o mínimo de conhecimento de informática vai saber COMO e ONDE baixar esses jogos pela internet, ilegalmente, e como instalar sem que seus pais saibam. Ou seja, ao proibir um jogo, não criamos segurança. Criamos um ambiente propício para crimes virtuais. Lindo.
Quer evitar que seu filho seja um maluco? Converse com ele. Explique-lhe, de forma clara, conceitos como “Certo e Errado”. Mostre a ele a importância de respeitar a vida, e que um jogo é puramente um jogo, não a realidade. Observe-o. Compareça aos lugares que ele frequenta. Veja quem são seus amigos. Brinque com ele. Conheça-o, não o julgue por um jogo. E, principalmente, não proiba algo por preguiça de ensiná-lo. Na pior das situações, você só vai estar adiando o inevitável.
Jogos não matam. Pessoas matam. Pessoas com tendências homicidas vão matar, independente de haverem jogos violentos no mercado, ou não. É preciso ter consciência disso. Não é proibindo algo que você vai evitar o aumento da criminalidade.
Agora, se me dão licença, eu preciso ir ali matar uns mendigos, estrupar umas menores, surrar empregadas domésticas, e praticas alguns rituais satânicos. Afinal, na minha época jogos não eram proibidos, e hoje eu sou jogador, RPGista, fã de quadrinhos e de mangá. Sou sangue ruim, mano. Uma ameaça à sociedade.
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Compre Djá!















Beleza?
Muito bom argumento. Esse paternalismo sempre esteve presente no Brasil. Toda vez que uma proibição dessas acontece, percebo que, cada vez menos, temos chance de ver o país amadurecer.
abraço
Cara, esse artigo está fantástico!…
Eu tenho um filho de 10 anos, e não deixo ele jogar certos jogos (GTA, CS). Mas não foi uma coisa que proibí e pronto. Cheguei até a mostrar os jogos para ele e comentar as ações que ocorriam. Ele acabou me dando razão…
Isto foi fácil porque temos uma convivência, conheço a maioria dos amigos dele, brinco com eles no PS2 às vezes, e apanho muito dele no MK e no Tekken… Na vida real, ele é um menino que gosta de estudar, espirituoso e companheiro, o meu orgulho…
Final perfeito =p
è interessante que counter strike está no mercado ja faz anos, e só agora resolveram proibir do nada, sem base sólida e nem estudos realizados.
O mundo ta cada vez mais relaxado, desenhos como tom e jerry, e pica-pau sempre tiveram violencia gratuita na televisão. E mesmo assim não teve um surto de violencia pelo mundo afora só por causa de desenhos.
Só pq os pais tão cada dia mais preocupados com o trablho do que com os filhos, as empresas e o governo ficam proibindo jogos, censurando até tapinhas, e outras coisas.
Bahhh, daqui a pouco a gente não sai mais de casa pq os politicos manés não sabem controlar bandido….
(falei demais o.o)
É dificil falar, mas será que a culpa não é nossa? (geração de 70 e 80, novos papais e mamães de hoje)
Tenho um enteado de 12 anos e estamos esperando um bebê, tento dia após dia repetir a criação que tive (eu tb joguei muito pacman, alex kid, assisti muito chaves, pica-pau e hoje sou um adulto responsável), porém à minha volta muitas pessoas com a minha idade ficam só no ‘deixa ele’, ‘vc é muito radical’, etc, etc… Sinceramente eu tenho medo das novas gerações, que não são corretamente educadas pela anterior… Os professores de hoje em dia, são as pessoas que cresceram com a gente, e não estão nem ai… vejo pessoas na faculdade reclamando, que os professores pegam muito pesado, mas eles não se lembram que estão lá aprendendo pra ensinar posteriormente…
Deixo aqui a citação de outro artigo do genero:
http://garotasquedizemni.ig.com.br/archives/002291.php
Sem querer fazer propaganda, mas ja fazendo (desculpae Grave), o site dessas meninas é muito legal… Elas abordam situações do dia a dia com humor, assim como nosso amigo Grave…acompanho-as desde que elas escreviam na Revista Época (o que a molecada da loja de info onde eu trampava me zuavam não tava escrito no gibi…kkkkk)
[...] GraveHeart também fez um manifesto contundente e coloca em perspectiva o ponto [...]
[...] tive uma experiência tão rica como o autor do blog GuraveHaato em videogames, mas na minha infância assisti muito Pica-Pau, Pernalonga, Papaléguas, Tom e Jerry e a [...]
[...] GuraveHaato desu ka? – Prendam-me! Eu sou um maldito jogador de videogames!!!! [...]
Cara, realmente isso foi uma coisa lamentável.
Eu sou da Unidev, e também expus a minha opinião no meu blog:
http://mexidao.wordpress.com/2008/01/20/censura-imbecil/
Pronto, mais uma revolta postada.
Não verás país como este…
Vaticinou o jornalista Alexandre Maron em seu blog: “O país que não consegue nem controlar a febre amarela não podia saber fazer coisas simples como ter juízes que soubessem julgar. A todo momento surge um juiz posando de educador, de médico e qu…
[...] | GeekGear | Pensar Enlouquece, Pense Nisso | Direito e Trabalho | Rodrigo Flausino | Alex Maron | GuraveHaato | Escrita Torta | Mexidão e os já mencionado no artigo anterior, [...]
Como eu comentei no Blog do Ingaki, temos que tentar nos unir na blogosfera para testar nossa força conta besteiras como estas, nao apaenas para botar uma blogueira na playboy ou uma garota no BB, temos que tentar fazer algo que va fazer bem a todos..
Pois é, eu também joguei videogames, esses mesmos jogos q vc jogou…além disso, também jogo rpg de mesa e vampiro a mascara, aquele jogo do demo…E adoro Counter Strike, Carmageddon…
E hoje sou formado em administração, numa das mais respeitadas universidades.
Sou um cara sossegado, não saí por aí matando ninguém.
Muito muito bom o artigo, extremamente bem colocado. São tipos de lei como esta que afastam as game houses do Brasil e dificultam a distribuição de sucessos consolidados no exterior, empurram os preços (importação é uma taxa muito pesada) e nos fazem recorrer à pirataria.
Mas isso é sair do assunto. O melhor a ser feito na minha opinião é um abaixo assinado online/offline, do mesmo modo que foi feito com o apoio da Oi contra o travamento dos celulares.
Em termos de videogames, sempre os joguei, de todos os estilos, e farei na faculdade o curso de Jogos Digitais, na PUC. Carmageddon chegou as minhas mãos quando eu tinha 8 anos. Fazia barbaridades no jogo, como todos, ou as vezes só corria. Mas sempre tive o discernimento do real/irreal, que esses juízes obviamente não tem. Meus melhores amigos jogam tudo quanto é coisa, cs inclusive. E todos estamos na faculdade, procurando empregos, enfim, sendo cidadãos honestos, trabalhadores, e bláblá. Não tô aqui pra me exaltar, mas para mostrar que, pra quem joga desde os 4 anos, passando de aquele joguinho do nes, que o policial corria atras do bandido pra “pegá-lo”, Contra, Mortal Kombat e Street Fighter até hoje, de acordo com o juíz eu devia ter matado até a mãe. Meu irmão então, nem se fala. Minha irmã é da época do Crash Bandicoot – oh, Deus, não sei como ela não sai rodando pela casa, quebrando caixa de feira e vestindo uma máscara indígena pra pular em todo mundo.
É por essas e outras que a gente não sabe depois porquê a Atari, por exemplo, se recusa a distribuir alguns jogos pra cá (caso dos recentes The Witcher e Neverwinter Nights 2: Mask of The Betrayer). Próxima coisa que vão proibir vai ser o Guitar Hero, sob a alegação de que a música alta, dos shows de rock/heavy metal, incitaria todos à um bate cabeca dentro de casa, mortal se combinado à uma dose anterior de Doom, Counter Strike ou qualquer outro FPS, pois ai a família ir querer levar os outros membros “na tramontina”.
E tenho dito! =P Valeu ai pelo espaço (falei d neh? o_o)
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