Fansubbers: há mais de 20 anos, legendando animes

Semanas atrás, resolvi procurar novos episódios de EyeShield 21 no fansubber americano “oficial”, e descobri que o projeto havia sido encerrado. Motivo? A série havia sido licenciada nos EUA. Caso eu quisesse continuar acompanhando a série, teria que comprar os dvds americanos ou tentar baixar de fansubbers menores, que normalmenete exigem cadastro e / ou contribuições em dinheiro, e fazem um trabalho notoriamente fraco…..

Justamente nesse período, surgiu a chamada para a “Blogagem Inédita“, e resolvi escrever sobre esses grupos, um fenômeno que existe há mais de 20 anos e, é de uma certa forma, utilizado pela grande maioria dos internautas brasileiros que baixam suas séries prediletas: o mundo dos fansubs. Para tanto, entrei em contato com vários fansubs brasileiros, mas apenas um respondeu o questionário que enviei. Por outro lado, como já acompanho esse movimento desde 1998, imaginei que poderia falar sobre o assunto com alguma propriedade.

Antes, um pouco de história….

Fansubbers são os grupos que legendam séries internacionais (principalmente as japonesas), para o idioma de origem do grupo, e as distribuem, sem antes terem comprado os direitos de distribuição da mesma. Tal fenômeno começou ainda em 1980, com a explosão dos animes no Japão, e a dificuldade que os fãs tinham de obter os títulos que eram lançados por lá. Como eram poucos títulos licenciados (já que havia um certo preconceito das distribuidoras com as séries japonesas), apenas alguns poucos fãs (que entendiam o idioma japonês) tinham acesso ao vasto material disponível.

Havia, também, uma espécie de ‘círculo vicioso’: as distribuidoras americanas temiam licenciar um produto caro e não obter retorno, e as que se arriscavam acabavam pegando séries fracas, dando-lhes um tratamento fraco (péssima dublagem, cortes, etc.), e lançando no mercado sem muito alarde. Os consumidores, por sua vez, ou tinham uma certa aversão à ‘desenhos’ (que no ocidente sempre foi considerado coisa de criança), ou preferiam não pagar uma fortuna para uma série mal trabalhada. Ou seja, se ficasse como estava, o já baixo número de fãs de anime tendia a diminuir até entrar em extinção, pela falta de material inédito de qualidade, material que não era trazido pelo medo de não haver retorno financeiro.

Os fansubs surgiram nesse momento, através de grupos de universitários, com uma idéia arriscada: como alguns fãs possuiam um bom conhecimento do idioma japonês, a idéia era legendar as séries, ainda que de forma amadora, e distribuir entre os fãs. No começo, ainda na década de 1980, a distribuição desse material era cara e demorada, pois exigia a compra das séries, a criação de scripts com o textos traduzidos, o uso de equipamentos caros para incluir a legenda, e um sistema de distribuição via fitas VHS. Em alguns casos, a produção de uma série completa não saia por menos de US$ 4.000,00, considerando todos os custos. E isso, para gerar um produto de qualidade duvidosa.

Mesmo assim, alguns fansubbers nem mesmo cobravam pela venda dos episódios: nos EUA, muitos fansubbers exigiam no máximo que a pessoa enviasse pelo correio uma fita VHS e uma determinada quantia em dinheiro para o envio da cópia já gravada. Outros, cobravam um valor extra, para custear a produção e possibilitar a compra de novas séries. A idéia não era enriquecer, mas manter o ‘mercado’ vivo, conseguir novos fãs, e mostrar para os distribuidores a viabilidade de licenciamento dessas séries. Oras, se uma série, com péssima qualidade de áudio e vídeo e legendas semi-profissionais, conseguia ‘vender’ centenas de cópias através de um sistema de distribuição amador, quanto não poderia ser obtido pelas distribuidoras se elas fizessem um bom trabalho?

planetes
Planetes. Se não fosse pelos fansubbers, animes como esse dificilmente chegariam ao Ocidente

Conforme o trabalho desses fansubbers ia crescendo, muitos problemas começaram a surgir: embora a iniciativa fosse benéfica, a distribuição do material era (e ainda é) uma violação de direitos autorais. o que tornava a atividade arriscada. Muitos fãs também criticavam a iniciativa, já que a venda desse material a custo baixo poderia impedir a vinda oficial das séries (obviamente, a preços mais altos). E, o que era pior: muitos fãs, percebendo aí uma chance de lucrarem, começaram a cobrar preços altos pelas séries ‘fansubadas’, ou até mesmo a revender o produto, com margens de lucro altas. Com todos esses problemas, acabou-se criando uma espécie de ‘código de ética’ dos fansubbers, visando justamente impedir que o trabalho deles fosse prejudicado:

1. Os fansubbers não devem visar lucro, logo, não podem vender os trabalhos traduzidos, apenas cobrar o valor de envio pelo correio e o custo da fita VHS. (Para evitar a ação de mal-intencionados, alguns fansubs passaram a incluir frases como “Anime feito por fãs para fãs, não venda ou alugue” na abertura ou durante o desenho).

2. Os fansubbers só podem trabalhar com animes não licenciados em seus países, encerrando os trabalhos com essa série a partir do momento em que a série for licenciada. (Há exceções, como quando o licenciador lança uma série com cortes pesados ou editando o conteúdo - nesse caso, o trabalho continua).

Lógico, isso ainda não resolvia o problema, já que o trabalho não deixava de ferir direitos autorais e a revenda continuava, mesmo que em menor intensidade. Mas já foi suficiente para uma ação mais direta contra os fansubbers, que continuaram fazendo seu trabalho de divulgação das séries. Na verdade, há vários casos de séries que só foram licenciadas oficialmente após um trabalho de divulgação pelos fansubbers. É provável que séries como Azumanga Daioh e Fushigi Yuugi jamais chegassem ao Ocidente de outra forma. Talvez, nem mesmo outras séries mais famosas.

Com o passar do tempo, conforme a tecnologia evoluia, o trabalho dos fansubbers foi mudando e ficando mais fácil: primeiro, distribuindo animes, em CD-R (para exibição no computador), depois em DVDs, e finalmente, com a popularização da banda larga de internet, a distribuição passaria a ser totalmente digital, com arquivos variando entre 30MB (no formato RealMedia, baixa qualidade) a 250MB (utilizando codecs como MPEG-4, XVid ou outros, que proporciona maior tamanho mas boa qualidade de áudio e vídeo).

Nos EUA, muitos fansubbers acabaram se profissionalizando, auxiliando as distribuidoras, ou até mesmo tornando-se distribuidoras. Hoje, embora não seja prática, é muito comum encontrar fansubbers que trabalham com séries pouco conhecidas, fora do mainstream, deixando séries com maior potencial econômico para serem lançadas oficialmente no país. Claro, isso não é um regra, e mesmo algumas séries já licenciadas continuam sendo legendadas, como Naruto e Bleach, por exemplo.

Fansubs no Brasil

No Brasil, os fansubbers demoraram um pouco a surgir: somente em 1996, quando Antonius Kasbergen fundou o BaC (Brasil Anime Club), que inicialmente apenas distribuia os fansubs norte-americanos, mas depois de um tempo passou também a criar legendas em português. No rastro foram criadas muitos outros fansubbers, como o Lum’s Club e o AnimeGaiden. O trabalho desses fansubbers era praticamente desconhecido, talvez até mais do que nos EUA, até que revistas especializadas (como a finada Animax) começaram a falar sobre o assunto, explicando aos leitores como funcionava um fansubber e como era o processo de ‘venda’ das fitas. Mesmo assim, o produto final era caro, fazendo com que muitos fãs só assistissem essas séries em eventos sobre animação japonesa.

Infelizmente, no Brasil o processo não foi tão bem sucedido quanto nos EUA. Muitos fãs, vendo algumas séries sendo lançadas com dublagem fraca ou problemas de tradução, começaram a boicotar qualquer iniciativa, mesmo as bem trabalhadas, e se voltaram apenas para o comércio via fansubs, rejeitando o trabalho das distribuidoras oficiais. Por outro lado, haviam problemas mesmo dentro dos fansubbers: a revenda era cada vez mais comum, haviam discussões entre fansubbers que legendavam a mesma série, e até mesmo de grupos que cobravam muito acima do esperado, e conseguiram enriquecer à custa dos fãs, sem pagar um centavo de impostos e licenciamentos.

Mesmo a ‘ética dos fansubbers’ acabou sofrendo por aqui: na época do lançamento de Evangelion na TV paga, em 2000, muita gente questionou se a ‘fonte de renda’ de muitos fansubbers seria removido do catálogo de séries, coisa que acabou não acontecendo. Para justificar o ato, muitos usaram a desculpa de que Evangelion não havia sido licenciado diretamente para o Brasil, mas sim para toda a América Latina, logo não a série não precisaria ser removida dos catálogos….

Conforme os anos iam passando e os animes em formato digital foram se popularizando, muitos dos fansubbers originais não conseguiram acompanhar as mudanças, e fecharam as portas. Alguns, como o AnimeGaiden, ainda conseguiram uma sobrevida com a venda de camisetas com estampas de séries famosas. Infelizmente, não foi o suficiente para manter o grupo e, embora as camisetas fossem de alta qualidade, o grupo veio a fechar tempos depois, vendendo os originais e fazendo promoções para fechar o estoque.

Dessa forma, como já era esperado, a profissionalização dos fansubbers brasileiros jamais chegou a acontecer, ao contrário dos EUA. Os motivos são vários e complicados demais para tratar aqui, mas envolvem a já conhecida burocracia brasileira, a falta de interesse de alguns envolvidos, a ação de fãs mais extremistas, que rejeitavam qualquer lançamento oficial, e até mesmo a dificuldade das distribuidoras em falar com os fãs. Houve um caso, ‘famoso’ no meio, em que uma distribuidora entrou em contato com um fansubber, com uma oferta de compra do trabalho de legendagem que ele haviam realizado para uma determinada série, oferta essa que foi negada pelo fansubber, o que acabou forçando a empresa a segurar um pouco o lançamento do produto, e tornou-o mais caro para venda ao grande público.

Complicado. Felizmente, a mentalidade tem mudado deste então. Setsuna (nick utilizado para o contato), dono do animesPlus fansubs respondeu a algumas perguntas para a realização dessa matéria, e trouxe uma visão renovada (embora não ainda a ideal) do trabalho dos fansubbers. O fansub, que existe desde 2006, legenda Naruto (no momento, a série Naruto Shippuden, a ’sucessora’ da série original) e não vê problemas em trabalhar com uma série já licenciada, tendo em vista os ainda comuns problemas de exibição no país (séries com cortes e alterações na história, poucos episódios licenciados, demora no lançamento, horários ruins, e o próprio preconceito contra ‘desenhos’). Por outro lado, o mesmo afirma que não cobra nada pelo trabalho, mantendo o site através de parcerias. Segundo ele, não há qualquer interesse em tornar o fansubber numa empresa, já que todo o trabalho é feito pelo prazer de difundir as séries, mas o mesmo não vê qualquer problema em disponibilizar o trabalho realizado pela equipe para uma distribuidora. O que é ótimo, pois já demonstra uma mudança na mentalidade do envolvidos com tradução e legenda de séries.

Infelizmente, outros fansubs contactados não retornaram, o que torna complicado traçar um perfil e saber até onde exemplos como o de Setsuna são o padrão dos fansubs brasileiros. O fato é que, embora existam fansubs que não cobrem nada, ou até mesmo outros que pedem uma ‘contribuição’ (mas não obrigam o pagamento das mesmas) para quem ajudar a manter o site no ar, é possível encontrar uma grande quantidade de sites que revendem animes, tanto licenciadas quanto não licenciadas, a preços exorbitantes, e sem citar o autor original do trabalho de legenda.

Hajime_no_Ippo
Hajime no Ippo: Boxe, no Brasil? Difícil…

Conclusão

É difícil classificar a ação dos fansubbers como ‘ilegal’ ou ‘legal’. A ação deles é ilegal, pois o copyright de uma série deve ser respeitado internacionalmente, mesmo que não haja um represente legal no país. Mas, ao deixar claro que o trabalho é feito sem interesse comercial, ‘de fãs para fãs’, para difundir os animes no país, muitos distribuidores fazem ‘vista grossa’ à ação dos fansubbers, em algum caso até mesmo aproveitando o trabalho deles como ‘balão de ensaio’, medindo o quanto uma ou outra série poderia ser viável comercialmente. Embora não conheça nenhum caso concreto no Brasil, nos EUA muitas séries foram lançadas oficialmente após terem feito sucesso entre os fansubbers.

Há também que se separar o trabalho dos fansubbers de séries de anime dos fansubbers de séries americanas. No segundo caso, o interesse é muito mais ter acesso à série antes da exibição oficial no Brasil, ou até mesmo para evitar a compra da mesma. No caso dos animes, o que temos é um trabalho realizado em uma mídia que era, em um primeiro momento, de difícil acesso aos fãs. É difícil comparar a legenda de um Lost com um Evangelion, por exemplo. O primeiro, sempre imaginou-se que seria trazido para cá. O segundo, embora tenha feito um sucesso enorme por onde passou, demorou para vir ao Brasil e ainda assim foi exibida apenas na TV paga, com uma dublagem das piores.

O fato é que, sem os fansubbers, mesmo hoje em dia seria quase impossível, para alguém que não tivesse acesso direto ao material japonês (e tivesse também conhecimento do idioma) acompanhar séries como The Melancholy of Haruhi Suzumiya, Hajime no Ippo ou até mesmo o ótimo Planetes, todas séries excelentes mas que dificilmente seriam lançadas no Brasil (mas, que, se fossem lançadas com qualidade, com certeza teriam espaço garantido na minha estante). O mesmo para várias outras séries que fizeram sucesso lá fora, mas nunca chegaram oficialmente ao país. Ver um lançamento como HunterXHunter, por exemplo, é algo dos mais raros.

Tanto o mercado ‘oficial’ quanto os fansubbers tem muito o que aprender um com o outro. Algumas legendas amadoras atingem níveis acima das normalmente encontradas nas produções profissionais, com inclusão de versões ‘karaokê’ das letras de abertura e encerramento, notas de tradução, comentários sobre algum fato cultural, e mais. Mas esses trabalho jamais atingirão a grande massa de consumidores, ficando restrita a um grupo pequeno de fãs. Quando poderíamos ter, por exemplo, uma série ‘fansubbada’ sendo exibida na TV aberta? E não era essa, em última análise, o real objetivo dos fansubbers?

Na minha opinião, mesmo com os aproveitadores que tentam ganhar um dinheiro em cima dos fãs, os fansubbers prestaram um serviço mais do que válido a todo o mercado de animes. Se desenhos japoneses deixaram de ser considerados ‘coisa de criança’, ou pouco rentáveis, se fandom nunca morreu, se hoje é possível ter um vasto catálogo de produções japonesas nas estantes, e até mesmo ver produções levarem o Oscar, é pelo trabalho desses grupos. Só é necessário, talvez, aprendermos a separar o joio do trigo, e deixar a Lei de Gérson de lado.

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Comentários

Já havia bastante anime legendado antes de 1996.
Pesquise mais.

[]s,

Sério que já havia ‘bastante’ anime legendado, em pt-BR, em 96, antes mesmo da criação do primeiro clube no Brasil? Legal! Então todas as informações disponíveis sobre fansubbers no Brasil estão erradas!

Esses fansubbers ficaram famosos por causa da internet.

Antes da internet comercial, já havia mostra de japanimation.

O nome animê tomou força por causa de são paulo. risos.

Muitas mostras de animação japonesa foram feitas com material seja legendado ou dublado em inglês.

Algumas séries eram alteradas de modo a serem aceitas no mercado americano.

Já ouviu falar em Carl Macek?
http://en.wikipedia.org/wiki/Carl_Macek

Bem, antes do processo se tornar totalmente digital (avi), se usava um amiga com genlock, um programa pra sincronizar legendas, dois video-cassetes, um TBC e muita paciência.
:)

Hoje, o que menos importa é a animação. As pessoas vão a eventos de ‘anime’ pra se travestir, cantar, andar de preto, comprar toda a sorte de ‘produtos’. Tudo muito estranho.

Antigamente, (uns 20 anos anos atrás..) mostras eram realizadas em auditórios, garagens, salas escolares onde se aguardava ansiosamente algo novo, selecionado.

As legendas vieram a fim de atender a necessidade de que muitos tivessem a oportunidade de entender o que se passava.
Importante sim, mas não tão relevante.
;)
Pra trabalharem em grupo as pessoas, nem sempre, precisam usar algum tipo de rótulo, né?

Lembro-me de ter assistido a serie Street fighter, com o “famoso” banho da Chun Li legendado em pt_BR em 94 ou 95 (eu estava na sexta serie).

Mas o material era raro, e muito dificil de se conseguir. Lembro que fizemos trocas até conseguir uns 30% da serie (o ep. do banho da Chun Li valia ouro :p)

Só não me esclareceu uma coisa… como eu consigo bleach ???

Está muito bom este artigo. Realmente, essa falta de compromisso e organização dos fansubbers brasileiros acaba por dificultar o nosso acesso aos animes. Muitos deles não têm se preocupado em legendar os animes pela qualidade em si, mas somente, pelo fato de estarem se destacando lá fora, ou seja, estão visando o lucro e não a divulgação.

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