A porta se abriu com dificuldade. O tem

A porta se abriu com dificuldade. O tempo havia se encarregado de tornar as dobradiças duras, gastas, enferrajudas. Pela primeira vez em muito tempo, a luz do sol penetrava novamente naquele lugar. O cheiro de mofo, de ar parado, de coisa velha, enchia minha narinas com seu ar pesado e morto. A luz que penetrava naquele ambiente, passando antes pelo meu corpo, tomava forma nos objetos que ali estavam, conferindo-lhes feições, ou lembranças, quase visiveis. O rosto de um amigo. As feições da primeira namorada. A primeira grande perda. Decepção. Raiva. Novas tentativas de encontrar o “grande amor”. Fracasso. Trabalho duro para aprender algo que nem minha irmã na faculdade conseguia entender. Ódio por saber que eu deveria me esforçar muito mais para sair do lugar onde estou, para não ser como os outros que infestam esse bairro e todo o mundo, e que já se entregaram a uma vida medíocre, sem grandes sonhos. Medo. De estar me tornando tão medíocre quanto essas pessoas. Tantos rostos. Tantas… situações. Mas, ali, naquele meio, eu não conseguia encontrar nenhum traço de momentos felizes. Naqueles caixotes onde eu guardava toda minha vida, eu só via… coisas ruins… coisas que me deixavam inseguro, amargo, chateado. Onde estavam meus momentos felizes? Onde estava o passeio no parque com a família? Onde estavam os momentos com os amigos? Onde estava o primeiro beijo? As palavras de carinho, os elogios merecidos, os….

Estavam numa caixa. Completamente escondida, debaixo de caixas sujas, fedendo à tristeza e decepção.

“O que eu fiz?” - Pensei.

Dificil explicar. Não sou psicólogo. Mas, em algum momento da minha vida, eu decidi viver de lembranças tristes. Mantê-las dentro de mim, guardadas, para que ninguém pudesse ver o quanto já me decepcionei. Escondia atrás de piadas, brincadeiras. Mas que nunca me trouxeram felicidade verdadeira. Era isso. Depois de tanto procurar, encontrei o que estava me matando. Fiquei tão preocupado em colecionar momentos ruins para que eles não se repetissem mais, que esqueci de guardar os bons momentos. E tal coleção de coisas ruins havia ficado tanto tempo trancada que me encheu de culpa. Culpa suficiente para quase fazer uma besteira. Besteira que não foi feita por um providencial telefonema de um amigo.

Meneei a cabeça. Minha busca tinha acabado. Consegui derrubar a parede que escondia essa sala no tempo em que estive fora. E sozinho, como sempre foi.

“Bom, isso vai dar trabalho……” - suspirei, enquanto começava a arrumação. É hora de deixar o ar entrar na minha cabeça. E é bem melhor fazer isso com psicologia barata do que com uma arma.

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