Sobre os golpes do falso-sequesto
Ontem, aconteceu algo estranho durante o almoço. No restaurante que eu costumo ir, pequeno, de família, formou-se um alvoroço na hora de pagar a conta, já que o filho, que cuida do caixa, recebeu um telefonema, aparentemente da irmã, pedindo socorro.
E, assim, com a fila enorme e a ‘irmã’ no telefone, ele foi tentando resolver o problema, mas a ligação estava ruim, ele não conseguia ouvir direito, e precisou pedir a ajuda da mãe e do pai, que estavam na cozinha. E, com isso, todos ficaram nervosos, tentando entender o que a menina falava no telefone. Aparentemente, ela havia sido assaltada, ou sequestrada, e estava desesperada.
E as pessoas na fila, vendo todo o desespero daquelas três pessoas, não se preocuparam em nenhum momento em pedir ajuda. Na verdade, faziam o contrário, exigiam velocidade no atendimento, deixavam um valor qualquer dizendo que depois pegavam o troco, e tratavam de sair correndo. Pareciam que não queriam se envolver, não queriam ajudar. Quando chegou a minha vez, vendo a mãe chorando, o pai gritando no telefone e o irmão nervoso, utilizei a vantagem estratégica de não ter nenhum vínculo emocional com a guria para sugerir que tentassem ligar para o celular dela. Podia ser tudo um golpe, afinal.
O irmão, percebendo que a idéia era boa, ligou e após dois toques, a irmã atendeu, tranquila, dizendo que estava tudo bem, ela estava ainda no trabalho. O pai, ao ouvir a notícia, mandou os golpistas pra uma lugar que eu pessoalmente não gostaria de ir, e agradeceu a Deus pela filha estar a salvo. Eu, ganhei um muito obrigado.
Esse, na verdade, era pra ser um texto sobre como as pessoas não se importam com o problema dos outros, sobre ‘umbigocentrismo’, sobre a falta de compaixão para com o próximo. Mas, depois de ler o jornal local, tudo mudou. Segue a transcrição da notícia, omitindo algumas informações:
Mulher morre após golpe do falso sequestro
Vítima de 68 anos sofre ataque cardíaco ao receber notícia que filha estaria refém de criminosos em (…)
A aposentada xxxx, 68 anos, morreu na noite de anteontem após sofrer um ataque cardíaco, em xxxxxx, logo depois de ter sido vítima do golpe do falso sequestro.
Ela passou mal depois de atender uma ligação a cobrar, às 23h30. Foram alguns segundos de conversa e a mulher começou a chorar e desligou o aparelho, caindo em seguida no chão da sala.
X estava em sua casa, no bairro X, na região sul, quando teve o ataque cardíaco. Ela chegou a ser socorrida pelo filho e pela Unidade de Resgate dos bombeiros, mas morreu às 23h40. Ela tomava remédios para o coração e já havia feito um cateterismo.
A funerária da Urbam (Urbanizadora Municipal) registrou a causa da morte como “desconhecida”. O velório e o sepultamento ocorreram ontem no cemitério Y, no Z, na zona sul, às 17h.
Ela deixou marido e cinco filhos –um homem e quatro mulheres. Quatro moram em São José, na região sul, e uma filha mora em Carmo de Minas (MG).
“Eles não mataram só a minha mãe. Causaram uma dor imensa em todos nós. Minha mãe era uma mulher alegre e adorada por todos”, disse o motorista X, 43 anos, que socorreu a mãe caída no chão.
Segundo ele, X e o pai, o também aposentado Y, 68 anos, estavam deitados na cama quando o telefone tocou. Ela levantou e foi atender.
DRAMA - Benedito disse que levantou da cama depois de ouvir a mulher dizer ao telefone que “meus filhos estão comigo” e começar a chorar. “Pensei que tinha ocorrido algo com um dos meus filhos e fui para a sala. Encontrei minha mulher caída no chão”, disse o marido da vítima.
Ele chamou o filho, que mora numa rua próxima. Garcia chegou na casa e o telefone tocou uma segunda vez. “Atendi e quando percebi que era uma ligação a cobrar, desliguei. Imediatamente comecei a massagear o peito da minha mãe”, disse.
O telefone tocou uma terceira vez e Benedito atendeu. Era a cobrar novamente e ele chegou a discutir com um homem. “O cara só dizia gíria e disse que ia me pegar”, disse o aposentado.
Ele e o filho tentaram ressuscitar a aposentada. O médico do resgate fez o mesmo, minutos depois, mas Luiza não aguentou o choque e morreu. “Não deu nem tempo dela contar o que o bandido disse no telefone. Acho que falou o nome de uma das minhas irmãs e a mãe não aguentou”, afirmou Garcia.
APURAÇÃO - O caso foi registrado no plantão do 3º Distrito Policial. “Trata-se de um crime muito difícil de solucionar. Não há gravação ou número do telefone. Creio que foi mesmo um golpe. A polícia vai apurar”, disse o delegado Edson Bimbi.
Luzia é a segunda idosa a morrer em X vítima do falso sequestro. No dia 18 de outubro do ano passado, XXXXXX, 75 anos, morreu do coração no momento em que criminosos tentavam aplicar o golpe. Ela morava no bairro ZZZZ.
Percebem o drama? Provavelmente, esses cornos filhos de uma puta relaxada são os mesmos que tentaram passar o golpe na família dona do restaurante em que almoço. E por muito pouco não fizeram mais uma vítima, pois a mãe da menina estava para ter um troço enquanto a situação não se resolvia.
Sinceramente, não dá. Já passou da hora da polícia, do governo e das companhias telefônicas tomarem uma atitude para, se não extinguir, pelo menos diminuir a quantidade desse tipo de golpe, provavelmente o golpe mais covarde de todos.
Mantenham um log (registro) de todas as ligações. Não deve ser impossível saber a origem de uma ligação. Não consigo acreditar nisso. Mesmo que digam que há aparelhos que inibem o rastreio, sempre é possível saber por quais centrais a ligação passou. Se der pra fechar o cerco em um bairro, já é meio caminhdo andado.
Coloquem mini-câmeras fotográficas nos telefones públicos. Assim como é feito hoje com telefones celulares, exijam um registro para recarga do cartão e uso do aparelho.
Garantam que, não importa o método que o bandido tente usar, não seja possível permanecer no tão confortável anonimato.
Isso É POSSÍVEL. Não estou falando sem um mínimo conhecimento da tecnologia necessária. E, justamente por conhecer os recursos que a área dispõe para impedir esse tipo de atitude, não aceito que fiquem todos os responsáveis nesse jogo de empurra-empurra miserável. Não pode, não dá.
Ontem foram duas pessoas que eu mal conheço. Quanto tempo vai demorar pra ser minha mãe uma vítima?
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